Sobre inspiração e aprendizado

Hoje vou compartilhar aqui um exercício muito interessante e produtivo que fizemos na mentoria em grupo. Para quem não sabe, a mentoria é um curso online de fotografia que ofereço desde 2010. Para saber mais detalhes, clique aqui. Embora a mentoria seja individual, periodicamente ofereço a quem já fez o curso comigo a oportunidade de participar de um grupo de ex-alunos, onde aprofundamos os estudos e todos se beneficiam de um ambiente de muita troca de experiências e aprendizados. Se você já fez mentoria comigo e quer ser avisado quando iniciar um novo grupo, envie um e-mail agora.  E se você ainda não fez o curso e quer fazer ainda este semestre, aproveito para avisar que no momento tenho uma vaga disponível para o mês de junho. Aguardo seu contato.

Recentemente, propus ao grupo que assistisse ao filme “Brooklyn”. Eu já tinha visto algumas semanas antes no cinema e  havia ficado encantada pela fotografia, trabalho primoroso do diretor de fotografia Yves Bélanger.

cinema e fotografia

Na época, não pensei em exercício, mas quando surgiu a proposta de escolhermos um filme para trabalhar no grupo, ele logo me pareceu a escolha certa. Fiquei fascinada também com entrevistas de Yves Bélanger sobre o filme que garimpei pela internet. Muito do que ele diz se aplica ao nosso trabalho na fotografia infantil e de família.

Boa parte de Brooklyn foi iluminada pela luz natural, e quando isso não era possível, a luz artificial era usada de forma a parecer natural. Quanto aos enquadramentos,  Bélanger diz que gosta de explorar os closes e que a face humana pode ser linda como uma paisagem. Ele completa que para manter o impacto do close, é importante não abusar dele. É assim também que eu vejo a sessão de fotos, o close tem seu lugar, mas para manter o impacto tem que ser intercalado com muitos outros tipos de enquadramento.

O filme teve muitas de suas cenas filmadas com a câmera na mão, o que nos dá a sensação de participar da história, além de acentuar o realismo. Mas isso foi feito de uma forma muito delicada, nada de câmera vertiginosa, tremendo na mão como vemos em certos filmes.
As filmagens aconteceram no Canadá e na Irlanda, mais um motivo para ser interessante para o nosso grupo, que tem participantes nesses dois países. A Nova York dos anos 50 na verdade é Montreal.  Diz o diretor que nas externas tinham que ser extremamente cuidadosos e os enquadramentos tinham que ser precisos. Uma movimentação para esquerda ou direita revelaria elementos modernos e acabaria com a ilusão de estar no Brooklyn de meados do século passado. E assim é também na fotografia, quando criamos beleza em lugares nem tão bonitos assim.

Uma coisa bacana que Bélanger disse e com a qual me identifico muito é: “Eu procuro estar sempre preparado, mas não a ponto de que se algo mágico acontecer, eu não esteja pronto para mudar.” Ele continua: “Parte da preparação é escolher bem a locação, em termos de texturas, cores e luz. Depois, é só seguir o instinto, reagir ao que acontece.”  Exatamente como eu penso nosso trabalho na fotografia! E ele segue: “Eu sou um contador de histórias. Cada tomada deve ter sua razão de ser, nada é deixado ao acaso.” Mais uma vez, uma lição em poucas palavras.

Em um primeiro momento, pedi que todos fizessem uma seleção de 10 quadros do filme que tivessem chamado sua atenção e publicassem em um álbum em nosso grupo. Foi muito interessante ver como cada pessoa fez uma seleção completamente diferente da outra. Mesmo tendo como material o mesmo filme, as seleções revelaram a singularidade de cada olhar. Vejam a diferença destas duas seleções, nem parecem saídas do mesmo filme. A primeira cheia de luz e cor. A segunda tomada de sombra e monocromia.

fotografia e cinema
Para ver maior, basta clicar na imagem.

No primeiro exercício, pedi que cada membro do grupo escolhesse uma cena do filme para copiar, com o máximo de exatidão possível. A cópia é um importante instrumento de aprendizado. Obviamente, a intenção não é imitar e agir como se fosse seu, mas sim conseguir reproduzir em as características de uma obra, de forma intencional, para depois ter essas técnicas em seu arsenal e criar algo novo.

Aliás, sobre este assunto eu recomendo um livro excelente: “Roube como um artista”.

livro roube como um artista

Quem quiser comprar, pode encontrar o livro clicando aqui e o e-book, aqui.

O autor, Austin Kleon, começa o livro com uma citação de T. S. Elliot:

roube como um artista

E segue com outra do diretor de cinema Jim Jarmusch:

“Roube qualquer coisa que ressoe em você, que inspire ou abasteça sua imaginação. Devore filmes antigos, filmes novos, música, livros, pinturas, fotografias, poemas, sonhos, conversas aleatórias, arquitetura, pontes, sinais de rua, árvores, nuvens, bacias hidrográficas, luz e sombras. Para roubar, selecione apenas coisas que falam diretamente à sua alma. Se você assim fizer, seu trabalho será autêntico.”

E é exatamente o que recomendo sempre a meus alunos. Busquem inspiração de qualidade, deixem de lado o feed do facebook, como se nele estivesse tudo que interessa saber no mundo, e busquem inspiração em museus, livros, exposições, entre tantas outras possibilidades enriquecedoras. Um livro infantil lindamente ilustrado pode ser uma aula de composição. Uma música pode despertar uma imagem que vai inspirar um ensaio. Uma visita a um museu pode ser melhor que uma palestra de um assunto específico da fotografia. E um filme pode ser a origem de belas fotos, como veremos aqui.

Seguem algumas cópias feitas pelo grupo, sempre à direita da foto que usaram como fonte.

mentoria
Foto: Cynthia Myarka

 

mentoria
Foto: Fabricia Rocha

 

Foto: Joice Dohmen

 

mentoria
Foto: Vanessa Botelho

Após a cópia, fiz uma nova proposta. Dessa vez pedi que fizessem mais uma foto, desta vez uma criação original, mas que de alguma forma remetesse a aprendizados ou inspirações trazidos pelo filme. E este foi o resultado:

Cynthia Myarka

 

Fabricia Rocha
Fabricia Rocha

 

Joice Dohmen
Joice Dohmen

 

Vanessa Botelho
Vanessa Botelho

E para encerrar este post, mais uma citação do livro indicado acima, desta vez do próprio autor, e que resume todo este processo:

“O que um bom artista entende é que nada vem do nada. Todo trabalho criativo é construído sobre o que veio antes. (…) Você é um mashup do que escolhe deixar entrar na sua vida.”

 

 

 

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